sexta-feira, 14 de março de 2014

O que tiver de ficar








"Escuta,
nem os fios de cabelo nos pertencem.
Eles caem
involuntariamente
quase que
sem
percebermos o
movimento
da
Queda."



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Texto: Aline Bei. Mais aqui: http://www.oitavaarte.com/2014/03/13/d-n-a-por-aline-bei/

quarta-feira, 29 de janeiro de 2014

Dentro do grito a menina

Um grito. Vinha de dentro do sonho, de dentro dos livros e da miniatura de cavalo na estante. Saía ressonante desde seu princípio, agudo nos picos de voz; grave na impressão do tímpano; como uma impressão digital de terror cravada nas horas de calor excessivo da madrugada. Não é o primeiro; têm se seguido; gritos e gritos da voz desconhecida. Enfrentam o seu pavor ancestral, assustam os maus espíritos, cantam insanamente o poema das profundezas?
Me tiram o sono, a paz, a mansidão de um sono com Fahey aos ouvidos, tática pra ver se durmo mais, ou bem, ou durmo afinal. Me tiram o sono pra me mergulhar em sua inconsistência e efemeridade; se vão e  acordo pensando quem é que está tão desesperado.



Eu sei de onde vem: do espelho que me engana, da cara interrogativa no espelho,
do espelho maligno por trás dos meus olhos. O grito materializa o desejo de me arrastar
pra fora do meu corpo, da minha carne, da minha essência. É libertação. E quando acordo,
como voltar pro grito, sair da prisão do corpo?



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http://www.youtube.com/watch?v=7BkHaiLCV7Q










domingo, 26 de janeiro de 2014

Limbo?

O cigarro se vai,
O tédio se vai,
esvai-se o pensamento.

Acabam os ouvidos;
as mãos se enroscam.

A cabeça se engancha no momento.
O corpo se cansa da existência
pseudo-estridente
e o limbo já está cheio.





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"Quando a gente já se transformou num hábito, não pode de maneira
nenhuma transformar-se bruscamente numa revelação que submerge tudo."

quinta-feira, 23 de janeiro de 2014

Burma é minha

Um lugar.
Áspero, intratável como um cacto: convidativo, portanto. Passagens secretas, tempestades de areia e Chandon em taças de cristal. Particularmente, prefiro o vidro em sua forma primitiva, beber da fonte. Pessoas em todos os estados. Pessoas líquidas. Gente vestida colorida e sem cor na face. Muita gente, o que é proporcionalmente igual a ninguém.







"I know what you mean about wishing somebody wasn't there, though. It's just usually it's myself that I wish I could get away from. Seriously, think about this. I have never been anywhere that I haven't been. I've never had a kiss when I wasn't one of the kissers. Y'know, I've never, um, gone to the movies, when I wasn't there in the audience. I've never been out bowling, if I wasn't there, y'know making some stupid joke. I think that's why so many people hate themselves. Seriously, it's just they are sick to death of being around themselves."

https://www.youtube.com/watch?v=YNPaKr6qzYg

quinta-feira, 19 de dezembro de 2013

Lines for people after the party

By Alex Dimitrov

And whenever they couldn’t speak they looked at each other.
How long should I look at the world before I go home?
It’s a moody life like Debussy on a weekend
and all the appointments and money and drinks they do go.
So with our beautiful coats we went back to that mess
and what happened? Someone found what they wanted
by night, by mistake. In the car it felt like summer
and we lived with no sun    . . .    just metals and leather.
A lot of   Mondays. A lot of you in the grass I go to and touch.
Oh and Los Angeles for its slow light. Rome for when it gets late.
You. Not you, but you who are reading   . . .
what won’t you ask for and want?
Of course I remember it differently because I was broke
and it feels like I’m broke still.
The cabs lined up but no one took him
where he wanted to go. Those months shared a face
and the face of a dog on a street was the only thing
that really saw you (for a long time).
Then I heard you were traveling, I heard you were somewhere,
I heard you were nowhere anyone looked for at all.
French stationery. Construction. Sent then deleted. Missed you
so sorry next time press yes to continue press now.
And I stood on Barrow then Greenwich then Allen
then all streets, every street, all the time, everyone.
There was a check you used just to drive out there.
There was a storm that brought a gold door in front of their shoes.
You know, it doesn’t get easier with the lights on.
It doesn’t get easier to watch the play with an end.
On the way out someone said, what a terrible way to portray life.
But about us. Hide all week then some place
we go empty the dark in. In the dark
with our vices and best shirts and history’s dress.
Then you could find me anytime. And then there’s right now.
Where wouldn’t we go to be no one and those people again?

quarta-feira, 27 de novembro de 2013

Consideração da noite azul


Love is a dog from hell. Indeed.
Um último cigarro para acompanhar o último gole de cerveja. E a cerveja acaba. Mas o cigarro continua, e a noite e a música. Um milhão de versos na cabeça, a maioria alheios. Mil coisas pra dizer, como? E quando? O tempo se torna a mortalha dos dias; a música, o céu do pensamento. Guerilla ontology. Parece bom, mas precisa ser desenvolvido. Principia Discordia? Uma visão da coisa, mas para dias de humor. Descobrir o que significa whimsical. Em todo caso, não parece uma palavra que eu usaria muito. Aprender a tocar oh well. Aprender os atalhos desse pc. Aprender a não ficar fleumática com memorias. Mas ah, a nostalgia. Especialmente aquela de dias que não aconteceram. Me vira do avesso. Escrever. Fazer foto-poesia. Preparar um projeto de aulas (de qualquer forma, o jazz pedagógico tem 'dado certo'). Fumar menos. Andar mais de bicicleta. Ou fumar mais e melhor. A bicicleta, mesmo assim. Aprender a dançar? Talvez o pensamento já dance o suficiente. Um inception de deja vu é possível, mas uma coincidência muito grande não é nunca só uma coincidência. Beber mais cerveja, em todo caso. Koyaanisqatsi. Dos esquizofrenéticos, Dalí me proteja. Cohen, oh Cohen. Was it love, or the idea of being in love? Or was it the hand of fate that seemed to fit  just like a glove?









De resto, escutar isso na bicicleta, o vento na cara, e não ter vontade de entrar embaixo de um caminhão. http://www.youtube.com/watch?v=pau8Zf7srlU

sexta-feira, 22 de novembro de 2013

A mulher mais linda da cidade

                                                                  


 "Mas ela era do mundo em que vivem as coisas mais belas
Têm o pior destino:
 E Rosa viveu o que vivem as Rosas,
O espaço de uma manhã."
François Malherbe


Pedi bebida para ela. Depois olhei. Estava com um vestido de gola fechada. Cass jamais tinha andado com um traje desses. E logo abaixo de cada olheira, espetados, havia dois grampos com ponta de vidro. Só dava para ver as pontas, mas os grampos, virados para baixo, estavam enterrados na carne do rosto.
— Porra, ainda não desistiu de estragar sua beleza?
— Que nada, seu bobo, agora é moda.
— Pirou de vez.
— Sabe que sinto saudade — comentou.
— Tira esses grampos daí.
— Negativo. É moda.
— Estão me deixando chateado.
— Tem certeza?
— Claro que tenho, pô.
Cass tirou os grampos devagar e guardou na bolsa.
— Por que é que faz tanta questão de esculhambar o teu rosto? — perguntei. — Quando vai se conformar com a ideia de ser bonita?
— Quando as pessoas pararem de pensar que é a única coisa que eu sou. Beleza não vale nada e depois não dura. Você nem sabe a sorte que tem de ser feio. Assim, quando alguém simpatiza contigo, já sabe que é por outra razão.


(Do velho Buk)




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Imagem: Egon Schiele