quarta-feira, 24 de abril de 2013

Três pares de sóis

Três pares de sóis queimam a aurora:
O vigor e a morte,
A liberdade e a prisão,
A solidão e o amor.

Um corpo aprisionado dentro de uma ideia é a morte.
A liberdade que se esconde de si mesma é prisão;
A solidão não é o contrário do amor, é seu trajeto


E o amor são duas solidões que se completam.






Imagem: 'Indian Sun', Baryua.

sexta-feira, 5 de abril de 2013

Medida

A medida da realidade é o coração.

A medida do tempo é a fluidez.

A medida da mente é o que há fora dela.



quarta-feira, 16 de janeiro de 2013

Mulher, mulher...


Para que todo esse brilho? Ofusca a vista dos que estão acostumados com a escuridão. Essa vida que explode no teu corpo contamina os pessimistas; eles ficam embriagados e você bem sabe o que é alguém embriagado de droga desconhecida.

 Esse absinto aí, que corre nas tuas veias, é veneno. A cobra inofensiva, a maçã envenenada. Você sabe que é assim. A luxúria tem um nome enganoso; corrói as estruturas fracas dos puritanos. Ainda que eles a venerem e se enfiem em buracos fétidos para praticá-la, como ratos. Sabe, só escondidos eles podem ser ratos.

Apaga esse fogo milenar que queima no teu sexo. Que queime no teu corpo, tudo bem. Queimar o corpo alheio é crime, sabe. Atentado ao pudor. Que o pudor seja coisa mesquinha, vá lá; sabemos. Você seria condenada; seria a Geni das ruas.

Antes que joguem merda na tua cara, explode essa tua estrela e joga no meio deles. Que morram queimados assim. Será digno.




Imagem: Ocuppy Wall St, Comeau.

quarta-feira, 21 de novembro de 2012

Prove que você existe

Prove que você não é um robô.
Tenha documentos válidos.
Compre mais do que você consome.
Não use drogas; tome remédios.
Reclame do trânsito e troque de carro
a cada ano.
Vote num palhaço e reclame do circo
que virou a política.
Tenha hábitos alimentares principescos,
faça supermercado recreativo,
não dê esmolas aos mendigos
(para não fumarem crack)
e beba sua sagrada cerveja
todo domingo.
Demonstre pena do cachorro atropelado
na rua
e não diga a ninguém
que  você bate no seu cão
(que late a noite toda
porque não sai
para passear).
Seja saudável: vá de carro até o parque,
fazer uma caminhada;
Vá ao shopping comer uma salada;
beba refrigerante diet.
Estude: leia livros de auto-ajuda que dizem tudo
o que você já sabe;
vá para a faculdade falar sobre roupas e sapatos e
como é um escândalo o movimento estudantil
e que filho da puta é o professor que pede a leitura
de um texto cujo sentido você não alcança.
Ame a natureza: vá para a mesma praia suja que
você frequenta há anos;
entupa o ar com a fumaça do seu carro;
Venere as lindas cidades que você nunca conhecerá.
Tenha um cônjuge: divida com alguém seus dias, seus problemas,
suas dívidas e sua mesquinhez.
Viva: os mesmos dias sórdidos, as mesmas horas lentas,
o mesmo trabalho ingrato que permite sua sobrevivência;
as mesmas paixões parasitas, o mesmo tempo arrastado,
os mesmos ponteiros do relógio do tédio que correm
certeiros em direção à morte.

Viva: prove que você
não é um robô.

segunda-feira, 1 de outubro de 2012

Fare Thee Well

Era um romance. Tinha tudo para sê-lo: a amena angústia da ausência; o vício frenético em palavras ambíguas; o colorido vago do prazer. Era um raio de sol, um deleite.
Durou tanto quanto dura a aurora boreal - efêmera eternidade de luz, caótico tecido de cores brilhantes.
Cegou. O fulgor fatal tomou conta das trevas. As árvores seculares riram desdenhosas do corpo mergulhado em luz.
Agora, os seculares troncos, com suas copas imortais, amparam o cadáver fluorescente - único ponto luminoso na floresta que tem sido escura por milênios.
Da luz, restou a sombra.

Rogo

Deixa brilhar a luz da loucura
na escuridão do silêncio armado
de facas cegas e armas sem balas.

Deixa vir o grito do vento
no ar tóxico, caótico
que dissolve teus pensamentos.

Deixa, deixa de ser isso.
Essa persona demente, reticente,
vago rascunho de humanidade.

Animal, animal tu és. Aprende!

segunda-feira, 30 de julho de 2012

A prostituta


Deixai ir por entre vós minha musa triste
com palavras presas em sua garganta seca;
seus cabelos de estrela e seu vestido de lodo
E o coração mais pesado que o mundo.


Ela irá por entre vós como um desejo
sólido e efervescente, feito de carne.
Como a filha da sífilis, que o olhar evita;
como a criança mais leve que o ar.




Imagem: 'A blue room', Picasso.