Prove que você não é um robô.
Tenha documentos válidos.
Compre mais do que você consome.
Não use drogas; tome remédios.
Reclame do trânsito e troque de carro
a cada ano.
Vote num palhaço e reclame do circo
que virou a política.
Tenha hábitos alimentares principescos,
faça supermercado recreativo,
não dê esmolas aos mendigos
(para não fumarem crack)
e beba sua sagrada cerveja
todo domingo.
Demonstre pena do cachorro atropelado
na rua
e não diga a ninguém
que você bate no seu cão
(que late a noite toda
porque não sai
para passear).
Seja saudável: vá de carro até o parque,
fazer uma caminhada;
Vá ao shopping comer uma salada;
beba refrigerante diet.
Estude: leia livros de auto-ajuda que dizem tudo
o que você já sabe;
vá para a faculdade falar sobre roupas e sapatos e
como é um escândalo o movimento estudantil
e que filho da puta é o professor que pede a leitura
de um texto cujo sentido você não alcança.
Ame a natureza: vá para a mesma praia suja que
você frequenta há anos;
entupa o ar com a fumaça do seu carro;
Venere as lindas cidades que você nunca conhecerá.
Tenha um cônjuge: divida com alguém seus dias, seus problemas,
suas dívidas e sua mesquinhez.
Viva: os mesmos dias sórdidos, as mesmas horas lentas,
o mesmo trabalho ingrato que permite sua sobrevivência;
as mesmas paixões parasitas, o mesmo tempo arrastado,
os mesmos ponteiros do relógio do tédio que correm
certeiros em direção à morte.
Viva: prove que você
não é um robô.
quarta-feira, 21 de novembro de 2012
segunda-feira, 1 de outubro de 2012
Fare Thee Well
Era um romance. Tinha tudo para sê-lo: a amena angústia da ausência; o vício frenético em palavras ambíguas; o colorido vago do prazer. Era um raio de sol, um deleite.
Durou tanto quanto dura a aurora boreal - efêmera eternidade de luz, caótico tecido de cores brilhantes.
Cegou. O fulgor fatal tomou conta das trevas. As árvores seculares riram desdenhosas do corpo mergulhado em luz.
Agora, os seculares troncos, com suas copas imortais, amparam o cadáver fluorescente - único ponto luminoso na floresta que tem sido escura por milênios.
Da luz, restou a sombra.
Durou tanto quanto dura a aurora boreal - efêmera eternidade de luz, caótico tecido de cores brilhantes.
Cegou. O fulgor fatal tomou conta das trevas. As árvores seculares riram desdenhosas do corpo mergulhado em luz.
Agora, os seculares troncos, com suas copas imortais, amparam o cadáver fluorescente - único ponto luminoso na floresta que tem sido escura por milênios.
Da luz, restou a sombra.
Rogo
Deixa brilhar a luz da loucura
na escuridão do silêncio armado
de facas cegas e armas sem balas.
Deixa vir o grito do vento
no ar tóxico, caótico
que dissolve teus pensamentos.
Deixa, deixa de ser isso.
Essa persona demente, reticente,
vago rascunho de humanidade.
Animal, animal tu és. Aprende!
na escuridão do silêncio armado
de facas cegas e armas sem balas.
Deixa vir o grito do vento
no ar tóxico, caótico
que dissolve teus pensamentos.
Deixa, deixa de ser isso.
Essa persona demente, reticente,
vago rascunho de humanidade.
Animal, animal tu és. Aprende!
segunda-feira, 30 de julho de 2012
A prostituta
Deixai ir por entre vós minha musa triste
com palavras presas em sua garganta seca;
seus cabelos de estrela e seu vestido de lodo
E o coração mais pesado que o mundo.
Ela irá por entre vós como um desejo
sólido e efervescente, feito de carne.
Como a filha da sífilis, que o olhar evita;
como a criança mais leve que o ar.
Imagem: 'A blue room', Picasso.
sexta-feira, 20 de julho de 2012
Teresa
Teresa do olhar fixo. Apaixonadamente perplexo.
Ela era uma pedra. Estática e mutável. Inerte e permanente, plácida. Bovinamente plácida.
E então, era. Acontecia a todo momento; sua existência fervilhava. Intensamente contemplativa, compartilhava da alma da natureza, da urbe, do cosmos.
O tempo fluía, escorria por seus dedos, e ela observava, como o último ato antes da morte. Percebia um movimento contínuo e animalesco no andar e comer e falar das pessoas. A fruição era angustiante. As ondas de percepção a jogavam no instinto. Ela vislumbrava o uno inseparável, o homem-animal. O instinto primevo. E se envolvia na fruição sensorial, espiritual. A lógica não tinha razão.
Teresa andava com pernas de dança, cabeça de loucura e alma de lugar algum.
Ela era uma pedra. Estática e mutável. Inerte e permanente, plácida. Bovinamente plácida.
E então, era. Acontecia a todo momento; sua existência fervilhava. Intensamente contemplativa, compartilhava da alma da natureza, da urbe, do cosmos.
O tempo fluía, escorria por seus dedos, e ela observava, como o último ato antes da morte. Percebia um movimento contínuo e animalesco no andar e comer e falar das pessoas. A fruição era angustiante. As ondas de percepção a jogavam no instinto. Ela vislumbrava o uno inseparável, o homem-animal. O instinto primevo. E se envolvia na fruição sensorial, espiritual. A lógica não tinha razão.
Teresa andava com pernas de dança, cabeça de loucura e alma de lugar algum.
Imagem: 'Beggar Woman', Modigliani.
quarta-feira, 18 de julho de 2012
Oração
Guarda no teu seio
a minha essência,
acolhe meu espírito perdido.
No teu colo de suavidade,
Cosmo,
guarda meu espírito.
Não me deixa derreter
nos braços da obscuridade
nem fugir de mim mesmo
em devaneios.
Guia-me para a tua luz,
para o teu delírio certeiro,
teu delírio perfeito,
teu palpitar inteiro.
a minha essência,
acolhe meu espírito perdido.
No teu colo de suavidade,
Cosmo,
guarda meu espírito.
Não me deixa derreter
nos braços da obscuridade
nem fugir de mim mesmo
em devaneios.
Guia-me para a tua luz,
para o teu delírio certeiro,
teu delírio perfeito,
teu palpitar inteiro.
Escrito com Anna Raquel.
Contigo
Não deves pensar no tempo,
ele só nos angustia.
Te apegues ao pensamento
- que é claro como o dia -
de que eu estou contigo,
como minha torpe poesia.
ele só nos angustia.
Te apegues ao pensamento
- que é claro como o dia -
de que eu estou contigo,
como minha torpe poesia.
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