quarta-feira, 10 de julho de 2013

Kerouac

É esse aí. Me acompanhou por uns 8km de pedal na estrada do crepúsculo nublado. Não se importou com a pouca luz da noite nascente, e sentou comigo na frente da igreja. Enquanto eu queria gritar "Ó universo, aniquilai-me de uma vez por todas!", ele se enroscava em si mesmo, na mais pacífica e protetora das ações.
Um frio na espinha; os dias com essa sensação nunca são bons. Não há sorte nenhuma no mundo, como? Quem a possui são os cães; sua vida é toda feita de suavidade e devoção.
A minha... não sei por onde começar, talvez porque nada comece nunca.






Round 'n' round
carousel
has got you under it's spell
moving so fast ... but
going nowhere.




Imagem: 'Kerouac', Delira. 

terça-feira, 9 de julho de 2013

À la Poe

Os macacos fazem ressuscitar. Era o que dizia aquele velho conto onírico psicodélico, ao menos. Na casa de D., sabiam que ele voltaria. O homem arranjara tudo desde antes de sua morte; era só por em prática. A grande casa clean vivia triste sem seu clown, por que não?
A moça e o rapaz foram atrás do macaco. Andaram pelos cantos da casa, como baratas. As madames os olhavam de esguelha, desconfiadas. No fim, resolveram com uma ligação para o além. Macaco que nada, já há telefone de almas. O clown voltou, sem piadas.  A morte o havia deixado exausto. E, no porão da casa, penduravam uma linda bebê no varal, para vê-la sorrir mesmo assim. Ela sorria um riso fraco, sem dentes e úmido; um prenúncio de desgraça que me enregela o coração.





Imagem: 'Varal dos enforcados', Ludmilla Ciuffi.  

quarta-feira, 3 de julho de 2013

Feliz Aniversário, Kafka.

"Ele estava tão enredado como uma mosca presa numa teia, na angústia e opressão de seus laços - de família, do trabalho mesquinho e da própria vida que transcorria como uma gosma dentro dele -, que exprimir isso lhe surgia como uma necessidade urgente e absoluta para ter pelo menos a esperança de lavar seu cérebro daquela viscosidade de patas que se debatiam sem conduzi-lo a lugar nenhum. Mas o pior das palavras era que, quanto mais as escrevia, mais elas pareciam afugentá-lo da nitidez de um alvo. O mais engraçado - provocando nele, em seu quarto de dormir, uma gargalhada parecendo guinchos, que enregelou a família na sala - é que foi justamente no momento em que entregou os pontos, desistindo de palavras ou pensamentos profundos, que ele entendeu que para escrever o que se passava dentro dele e ao seu redor não havia outra forma senão a mais rasteira e única possível: "Quando Gregor Samsa despertou, certa manhã, de um sonho intranquilo, viu que se transformara, em sua cama, numa espécie monstruosa de inseto."






Imagem: 'Franz Kafka', Warhol.

Texto: Sérgio Sant'Anna, aqui.

sábado, 29 de junho de 2013

Insônia

A filosofia da rua: do mendigo, da puta, do cigarro, do dinheiro, da cocaína, da besta, das massas, dos cantos, do bêbado, da viela, dos puteiros, dos dementes, dos sãos, dos trilhos, das rodas, dos niilistas e dos iluminados. Tem um ar... às vezes falta o ar. Respirar fundo, o pouco que fica, de olhos fechados e garganta dilatada. O engasgo, o ócio, a música, o espelho, o vácuo, o teto. Cigarro, cigarro.




Imagem: autor não identificado, adaptação de 'A grande onda de Kanagawa', de Hokusai. 

quarta-feira, 26 de junho de 2013

Multitude

Uma menina no meio da multidão é um bicho de sete multidões.

Cinco mil pessoas na multidão são a vibração caótica e desafinada do coro disperso.

Cem mil pessoas na multidão são orgia telepática.

Sete bilhões de pessoas na multidão são o mundo esquizofrenético.

terça-feira, 25 de junho de 2013

Engasgo

"Mas se a noite vier
cheia de luzes ilegíveis de véus
de relógios parados - ergue as asas
fere o ar que te sufoca e não te mexas
para que eu fique a ver-te estilhaçar
aquilo que penso e já não escrevo - aquilo
que perdeu o nome e se bebe como cicuta
junto ao precipício
e à beleza vertiginosa do teu corpo."






Imagem: 'Vertigem', Delira. 

Texto: adaptado de  Al Berto

segunda-feira, 24 de junho de 2013

Os marinheiros saíram pro sono e os ratos tomaram conta do sonho

- Régis, meu bem, saia do caminho e não me atormente. O lugar está cheio de ratos! Eles saem por todos os lados, você não vê? Saem das mesas, dos sofás e das paredes; saem das nossas roupas e dos nossos cabelos... eles tomaram nossa alma, Régis. Para de rir e escuta: os ratos tomaram tudo. Olha só: acostumaram com eles, as mulheres não gritam de horror; olham-se no espelho de vez em quando para ver se não há nenhum bicho asqueroso escorregando pelos cabelos. Os homens nem se manifestam; cultivam seus vícios e os asquerosos comem as flores; eles não se importam. Só se dispersam, para dar lugar aos ratos. Olha aquela mulher, aquela ali de vestido curto. Saiu um rato da calcinha dela, viu? Ele certamente vai acasalar com o rato da cueca de alguém.



Imagem: 'Rat', Banksy.