sexta-feira, 21 de junho de 2013

É o levante da Koyaanisqatsi

"Creio que eu poderia transformar-me e viver como os animais. Eles são tão calmos e donos de si! Detenho-me para contemplá-los sem parar. Não se atarantam nem se queixam da própria sorte; não passam a noite em claro, remoendo suas culpas, nem me aborrecem falando de suas obrigações para com Deus. Nenhum deles se mostra insatisfeito; nenhum deles se acha dominado pela mania de possuir coisas; nenhum deles fica de joelhos diante de outro, nem diante da recordação de outros da mesma espécie que viveram há milhares de anos. Nenhum deles é respeitável ou desgraçado em todo o amplo mundo."
(Whitman)


Entre os animais, não há Koyaanisqatsi. Tudo é equilíbrio; a exata natureza de tudo; a medida da necessidade. São justos, sem condescendência. Ativos, sem frenesi. Vivem na medida em que lhes cabe a vida.
Ao homem é dado o fascínio da transcendência - que tem se perdido em gritos vazios, em violência existencial.
Pensar não é discordar, é saber chegar sem ser conduzido.




Imagem do filme Koyaanisqatsi.

segunda-feira, 17 de junho de 2013

Embaixo da árvore

Perto da praça, perto da figueira. Um acaso, uma coincidência, um Cosmo unindo duas pontas de uma reta. Um azul chegando perto e tornando tudo brilhante. Um coração gigantesco de azul incandescente.
Distância é nada, coração é tudo.




 


Imagem: figueira centenária em Floripa.

quinta-feira, 6 de junho de 2013

Esta Mira

Este é o mundo dos espertos ao contrário. Compram comida na farmácia, comida estimulante; compram memórias prontas nas lojas de eletrônicos; compram móveis podres embaixo da ponte; compram palavras a preço de drogas, com os traficantes do sentido. A verdade, não... essa está próxima da loucura, e loucura não é negociável.

A droga mais perigosa  é a verdade por trás da loucura; a mente nunca mais será a mesma.

 Os olhos crescem até orbitarem a universo; as mãos fazem malabarismo com o tempo; a boca sente o fedor da maldade. A cópula louca dos espaços não cria santos nem demônios, e a família cristã não domestica o vício. "Pinot Noir honesto e silêncio, sem preço." Um discurso enorme sobre o valor do silêncio, sem preço. O vizinho martelando lá cima; o casal trepando no apartamento do lado; a criança berrando embaixo; os fanáticos em procissão para o inferno da ignorância... ah, o silêncio grátis.

Se você passar o dia falando em enigmas, no fim da noite terá uma epifania ou perceberá que enigmas não adiantam, não avançam, não cheiram, nem comem, nem fazem sexo. Nem nada, enigmas são nada.




Imagem do documentário Estamira.

terça-feira, 4 de junho de 2013

Pédarcoíris

(ou Porque as fichas de cheerleaders são azuis)

São lindas, bem formadas, as três.
A da esquerda veio do Brasil, vasto como seu quadril. Seus cabelos dourados de sol parecem o crepúsculo em sua pele bronzeada.
A do meio parece europeia, e tem aquela cara europeia de quem não gosta de nada em nenhum momento mas aí, de repente, abre um sorriso branco com seus dentes pequenos e incisivos e fica bonita. A da direita é louca, tem um cabelo quase branco como a neve e comprido o suficiente só pra esvoaçar com o vento. Parece ter saído de uma montanha de neve russa, é toda branca; só os olhos são escuros.
Movimentam-se em seu metro quadrado com displicência, sem muito desejo. É noite, talvez precisem do sol.
Para fazer graça, a da esquerda mostra seu sapato, num gesto obsceno de vaudeville - aí há algo. Tira-o lentamente, e, mágica, aparecem suas unhas do pé. Cortadas em triângulos, pintadas uma de cada cor, enormíssimas; uns bons dez centímetros. Faz mesuras e gestos como os se tocasse uma castanhola nos pés. A do meio não se abala, tira os sapatos calmamente e lá estão: são menores, mas obviamente menos frágeis, de uma completude mais harmônica, suas unhas cortadas como um losango. As cores berrantes parecem ter sido escolhidas por uma criança, coisa esquisita numa pessoa com uma cara tão monocromática.
A da direita sorri um riso de escárnio. Tira os sapatos e saem deles as mais longas unhas já vistas, e transparentes, translúcidas como as asas de uma fada.
São esquisitas, é claro que unhas deste tamanho serão esquisitas, mas para elas é o mérito da esquisitice.
Vão preencher sua ficha de inscrição para o que quer que seja, desde que as escolham.
Depositam-lhe nas mãos fichas de papel cartão, de um azul fosco e forte que ficaria mais bonito em algo fluido como a água do mar. Examinam as fichas: todas iguais. Mesmas informações, mesmos requisitos a cumprir, nenhuma singularidadezinha só para sorrir. Rasgam as fichas, dançam ao cair de pedacinhos azuis, dão-se as mãos e vão embora, cada qual com suas unhas.

sexta-feira, 31 de maio de 2013

Matemática básica

Divida-se a lucidez

Multiplique-se a loucura

Subtraia-se o mistério

Adicione-se a vontade,
                   o prazer,
                   a palavra espontânea,
                   o silêncio,
                   o grito,
                   a lágrima,
                   a gargalhada,
                   a dança improvisada,
                   o sorriso bêbado,
                   a tristeza sóbria,
                   o amor. 
                   

quarta-feira, 8 de maio de 2013

Árvore

Da árvore pendem frutos,
cachos flores tambores
notas musicais espelhos
folhas sorrisos mãos.

Moleque se pendura
no verde feroz
macio cuidado
viçoso.

Casca do tempo
abraça a seiva
da tranquilidade;
moça dormindo na árvore
sonha com amor.


segunda-feira, 6 de maio de 2013

Mistério

Mistério é flor de vento
semeada em coração de nuvem,

fresta de pensamento
branco, amarelo, azul
vermelho do cansaço
de adivinhar
o incognoscível.

É a palavra muda, som cego
o avesso do dentro do fractal
- tecido do caos.

Não se dá ao homem saber mistérios,
desvendá-los.
O mistério aleatório não tem importância,
como as várias galáxias
- incógnitas individuais, pentencentes a si mesmas.
O mistério mundano são os olhos fechados
do presente.

https://www.youtube.com/watch?v=UtQpSGyPCBE